A contemporaneidade vem se confirmando em uma das mais confusas formas de expressão de um padrão de comportamento pela qual o homem já se exerceu. Quando muito pouco consegue se identificar, joga ao mundo um olhar distanciado, arrogante, pouco sensível, opinioso e demasiado cheio de direitos sem a mínima possibilidade de alteridade.
O pensamento industrial e a comunicação de massa deixaram para o homem duas posturas completamente paradoxais: um serialismo, em que a possibilidade da pessoa se coloca na vida através do trabalho, desenvolvido para o ganho e criatividade de quem detém o capital; e o contato com a informação da realidade de acordo com o que este sistema quer que o “pobre do homem” pense, exerça e reproduza. Não há dúvidas que resta dentro de si uma vontade insuperável de se colocar no mundo como pessoa, nas tentativas de opiniões próprias, de reforço de um caráter (questionável, pois sempre somos seres diferentes dentro de nós), de exigência de direitos “de consumidor” (já que seus direitos de ser criativo com sua própria vida lhe é retirado como premissa). Os mecanismos de civilização vão montando aparelhos para suprir a carência produzida e se completa em maior distorção, por pleno desinteresse real e primeiro na conformação de alguma eficiência certa, direcionada às piores conseqüências resultantes deste descaso.
A arte, seja em que forma de expressão, historicamente sempre trouxe os “anúncios” do que se estabelece na vida, como “profeta”, espelho ou crítica sobre a atualidade. A música, como uma arte mais popular, ainda mais, demonstra a natureza do comportamento das aglomerações, principalmente desde que saiu dos teatros, deixando um terreno pródigo de possibilidades do fazer musical, pela própria concentração que o ambiente proporciona, junto à interação próxima entre artista e público.
Nunca achei uma palavra tão apropriada para estas aglomerações senão “turba”. Turba é um aglomeração tribal, instintiva, sem possibilidades de razão, repleta de susceptibilidades, altamente agressiva. Em um “modus operandi” qual se vê o homem sem personalidade, repleto de necessidades, carente ao extremo e detentor de algum poder capital, é sua natureza que explode, tribalmente – na pior acepção do que é o modo de sobreviver em uma tribo essencialmente voltada para a auto-preservação pela agressividade.
Bom, esta introdução é para falar de um evento musical ocorrido em Fortaleza, no Dragão do Mar, dia 13 de novembro, onde ocorreria o show do grande compositor, intérprete e pesquisador de samba, Marcos Sacramento.
Havendo prontamente passado o som e chegado ao som “perfeito” para sua apresentação, iniciou o show à noite, com toda segurança de que seria mais um grande momento em sua carreira. De um momento para o outro, ele pára, diz estar havendo um problema que o está impedindo de continuar e fica conversando com o público, num crescendo de impaciência que é esperada, quando se está com tesão de fazer a música que está pronto e quer fazer, e é impedido por fatores adversos. Tentou chamar o público para mais perto, para um “show acústico” – o que poderia ter sido maravilhoso (embora não creia, pessoalmente, que um espaço de 800 pessoas pudesse haver tal façanha). Após um período de espera e a constatação de que o problema era insanável, demonstrou ao público o seu descontentamento, a impossibilidade pessoal de estar ali e fazer o que queria fazer, avisando às pessoas que poderiam ir receber seu dinheiro de volta.
Isto, claro, gerou a ira da turba, cada um com seu individualismo, a se irmanar em torno da irresponsabilidade, falta de respeito e tudo o mais que é atribuído ao artista como catarse de um momento em que o encanto era o mínimo esperado, e que o “barato foi cortado”. Uma turba não tem a consciência dos problemas técnicos que rondam o fazer musical, não imagina que o artista carrega toda a sorte de responsabilidades em torno de seu trabalho – como também as controversas falhas que ocorrem, que são competências “contratadas” e que não é passível de controle – e, muito menos sabem de que é impossível que um show musical seja feito sem retorno.
O ocorrido, tecnicamente, é que a mesa que controlava o retorno do artista e dos músicos havia queimado e que não houve como reparar, não havia outra mesa, não havia solução imediata. Alguns dizem que se poderia ter realocado algumas das caixas que saíam para o som do público como forma de remediar prontamente. Sei bem que caixas de retorno não têm o mesmo som das caixas que o público ouve, elas são equalizadas de maneira diferente, de modo a que cada componente se ouça muito bem e também ao grupo em que está participando. (Já cantei algumas vezes sem o menor retorno e foi o maior fracasso...risos), o que é bem diferente de um show deste porte, em que o artista está trabalhando sua música, a continuidade de um trabalho sólido, e que não acontece como “nós”, artistas independentes da independência de não sei o quê.
Durante os três dias que separam o ocorrido da data de hoje, dia 16, não ouvi nenhuma reflexão sensata e sensível ao artista, o que me reforça a certeza de que a “humanidade não caminha”, como diz um poeta amigo. O artista é trucidado em um julgamento medieval, enquanto quanto mais sangue se fizer jorrar, quanto mais “queimar o filme daquele irresponsável”, mais a catarse que seria por encanto se realiza em instinto irracional e bárbaro – sim, a palavra tem o poder da barbárie e reflete todo o fervor da frustração de um encanto possível.
Ouvi também coisas de que “vou dar uma segunda chance” e “ainda pagarei para vê-lo”, depois de “certo esclarecimento” do ocorrido. Quanto mais se persegue o discurso montado a partir de uma coisa que não foi sequer analisada, mais se reflete a carência de um pequeno poder pessoal diante dos fatos do mundo. Não creio que enquanto não nós refizermos como pessoas íntegras – donas de nosso capital imaterial e material – seja possível conviver com o modelo de civilização que nos é imposto e justificado culturalmente por todas as partes do planeta, por todas as “ciências” e modos de produção em que o capital e a indústria alocam no coração dos homens que querem ter boa vontade, mas seu “capital instintivo” não lhe dá a menor chance de saber que é a crítica negativa e a má vontade que reinam neste pequeno lago de um ser só.
Continua-se a matar e depois perguntar o nome ao morto.